quinta-feira, 25 de março de 2010

Profundamente superficial

Estava fechada, bem unida, sem sorriso... mesmo assim, eu não sabia o que era sossego. Culpa daquela boca... essa aí, que insistia em tirar minha paz. Me deixava sem chão, sem lugar, sem noção. Eu ficava parada, vidrada, olhando avidamente esperando um sutil e espontâneo deslocamento daqueles lábios carnudos, queimados de sol, banhados de água e sal. Espera angustiante, raramente satisfeita. Uma vez ou outra me ofertavam a dádiva de abrirem-se lentamente, permitindo a visão, discreta, dos dentes brancos e perfeitos.

Ambicionava profundamente o anuncio de um sorriso. E quando surgia, ahhh, quando surgia o sorriso... até o nada se intensificava. Meus lábios ansiavam por aninhar-se, soterrasse embaixo dessa boca sinônimo de desejo ardente do pecado. Via minha língua a procura da língua dessa boca úmida, rosada, insinuando um desprendimento apegado.

Observava aquela boca, com esses lábios unidos e imaginava minha mão desenhando lentamente a boca eleita, entre todas as outras bocas, para ser desenhada e acariciada pela minha. Ansiava pelo momento exato do fim do sofrimento, a ocasião exata do seqüestro do beijo.

Roubei, seqüestrei, usurpei e esqueci... por que encontrei outra boca e agora, desejo mais que a sua.

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