sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O Jardim do vizinho

Feliz do ser humano que sabe valorizar o que vive. Eis uma espécie em extinção. Ninguém é feliz, mas já foi e não sabia. O passado parece sempre maior que o futuro. O presente, como se não existisse, não conta. Os paulistas querem as praias potiguares, os potiguares, a avenida Paulista. Os europeus querem o calor, os brasilerios, o frio. Ninguém quer ficar, todos fugirão assim que juntarem uma grana. O jardim do vizinho é sempre mais verde.

Eis a palavra: fuga. Eis outra palavra: preguiça. Na preguiça de consertar o próprio jardim, foge-se não para o jardim, mas para o quintal do vizinho, sempre mais belo, mais culto, mais pomposo, com mais oportunidades, mais futuro que passado. Até que o quintal do vizinho passe a ser seu. Então descobre-se: a felicidade em seu jardim morava e ninguém sabia.

Feliz do ser humano que sabe se valorizar. A década de oitenta era a década perdida. A década de oitenta virou a década boa. Os anos dois mil querem os anos 80. Os anos 80 querem se atualizar, mas não conseguem. A década do vizinho é sempre mais bela, mais culta, mais pomposa, com mais oportunidades, mais futuro que passado.

Feliz do ser humano que sabe valorizar o próprio tempo e espaço.

Mais do que nunca quer-se o do outro. Menos do que nunca olha-se pro próprio rabo. Cada macaco, com seus rabos desvalorizados, num galho alheio. Talvez por conta da TV, talvez por conta da Internet. Não quero minha vida: quero a vida que me salta aos olhos de dentro desta caixa eletrônica. Quero ser encontrado no Google, sintonizado na cabo, aparecer no Fantástico, bater papo com o Pedro Bial. Não quero o nascer-crescer-reproduzir-morrer. Nasci em Macau: quero Natal. Nasci em Natal: quero Recife. Nasci em Recife: quero São Paulo. Nasci em São Paulo: quero Londres. Nasci em Londres: quero Natal. Aproveito e passo uns dias em Macau.

Quero o que não me pertence para, quando sob minhas posses, entender que o que me fazia feliz era o que já me pertencia desde o início. Quero o que não me pertence por medo de olhar-me no espelho. Por preguiça de consertar meu próprio espelho. Quero viver a vida que não me pertence.

Feliz do ser humano que quer viver (e vive) a própria vida.

 
Marlus Apyus

Um comentário:

  1. Nasci em Natal, mas não quero Recife... Poderia até querer Londres... kkkk
    Saudade de "te ler"

    AMO

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