- Professora? Eu? Tá louco… Deus me livre!
- Oxi, mas porque não? Sua mãe é uma professora tão boa… e você conhece o ditado… filho de peixe…
- … quando sonha direito vira tubarão. Para ser professora não precisa só de vocação, precisa também ter muito saco. Coisa que eu não tenho. Vou lá aturar menino mal educado dos outros? Eu vou ser rica, não assalariada!
Pois é, realmente ser professora não era sua meta de vida. Passava o tempo se divertindo ao aperriar sua irmã mais nova. A mesma que tinha aquele probleminha um tanto curioso. Engolia a 2ª sílaba de palavras polissílabas.
- Repita comigo: cho
- cho
- co
- co
- la
- la
- te
- te
- agora, diga o nome completo
- “cholate”
- Se você continuar engolindo sílabas, vou começar a lhe chamar de Franete!
- Nããããããoooo (com aquele bico q parece q vai atravessar as paredes de tão rígido e grande)
- Franete, Franete, Franete! Oh fome desgraçada, vive comendo sílabas…
Que maneira de ensinar… Ainda por muito tempo, a irmã continuou chamando Sumercado, gedeira, Franaldo… com isso, o nome Franete ficou eternizado. Mas, a experiência acadêmica desta moça estava apenas começando. Muito nova, ainda concluindo o primeiro grau, alfabetizou essa tal Franete.
- G e A?
- ga
- T e O?
05 minutos de silêncio… a quase alfabetizada com aquela cara de “vou acabar com você agora por viver me chamando de Franete”, mirava com um olhar dissimulado imaginando a reação da irmã ao ouvir o absurdo que pensava em dizer… e como de um susto, gritava:
- PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!!!!- Como é Franete? Indagava com uma voz de quem diz “se prepare, bichinha”. A coitada peitava a irmã mais velha e falava mais alto ainda:
- PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!
- Ah é? Então diga agora: MEIA HORA DE TO! SEM PARAR!
- To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, PUXAVA O FÓLEGO E FALAVA MAIS FORTE E MAIS RÁPIDO: To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to, To, to, to!
É, acho q definitivamente ela e a profissão mais nobre do universo não falavam a mesma língua. Mas os anos se passaram, e no 2º ano de faculdade teve uma experiência real, foi lecionar numa escola pública alunos de ensino médio. E chegou com um discurso perfeito, ensaiado durante horas na frente do espelho, no primeiro dia de aula:
- É bom vocês logo entenderem que eu gosto de punir alunos que conversam na sala… Eu tive aulas de torturas com Hittle! VOCÊS SABEM QUEM É HITTLER? Isso mesmo, aquele que matou milhares de judeus durante a segunda guerra. E sem pena!
Mas, aos poucos, foi cedendo aos encantos das conversas ilógicas e as novas gírias que aprendia com os alunos, sabe como é, ne? Mesma idade mental…
- Então gente, vocês entenderam porque Mendel usou ervilhas no seu estudo com genética?
Uma aluna, muito timidamente, levantando o dedo, pergunta:
- Porque eram verdes e lisas?
Rapidamente levanta um aluno da última fila e responde:
- Sai daí, abestalhada… se fosse por causa disso ele tinha escolhido uma manga… além de ser maior é muito mais gostosa!
Nesse dia (devido a risadas impulsivas por parte da professora) a aula terminou mais cedo.
Os anos se passaram e a vida de professora a seguia. Não, não! Ela tentava escapar de todas as maneiras, mas o diabo da profissão era a única disponível para ela ganhar um extra… e como precisava de dinheiro… ensinou particular, em escolas particulares, escolas públicas… tudo para conseguir pagar seus pregos e as inscrições de bons concursos. Claro que quando surgiu aquele concurso para ser professora do estado, ela nem estava tão afim assim, mas, estava terminando a licenciatura, talvez valesse a pena fazer. E não é que passou… E o pior (?), se apaixonou por tal profissão antes tão abominada. Por uma simples questão: todo dia é uma novidade. Fez amizades com os alunos, se enfiou no mundo deles… e tudo se tornou mais divertido.
- Professora, a senhora é considerada!
Hoje ao ver respostas pitorescas (ou seria melhor dizer que são criativas), ela anota e faz anedotas… Um dia, perguntou na sala de aula:
- Gente, o que são seres unicelulares?
O primeiro da fila nem demorou a responder… na realidade, nem pensou.
- São seres vivos que possuem um só celular!- Ótimo, acabei de descobrir que minha mãe é acelulada!
Mas as grandes associações são as mais interessantes:
- Professora, que nome é esse?- Orvalho.- Ah, orvalho… orvalho não é aquele órgão do corpo da mulher, professora?
Ou então:
- Que órgão do sistema digestório ocorre a assimilação dos nutrientes?
- Destino delgado.
- É, já vi que todos nós acreditamos no destino. Tanto no delgado como no grosso.
Situações hilárias não faltam. Mesmo ela sendo a professora, aprendeu que o carinho que recebe compensa mais que o dinheiro. Tá certo que não compra o carro novo, mas tem trazido muitos sorrisos (chocolates, confeitos e pirulitos também).
Além do mais, ela vai passar num bom concurso e vai ser uma grande profissional do meio ambiente em um desses órgãos públicos federais. Porém, no seu turno livre ela já decidiu o que vai fazer… vai continuar se divertindo ensinando.
PUBLICADO EM: 04.06.07